REDES SOCIAIS, SONDAGENS E A ILUSÃO DE VITÓRIA
OPINIÃO
NUNO AGNELO– Jornalista e Politólogo
A vitória de António José Seguro nas eleições presidenciais em Portugal volta a expor um erro recorrente na política contemporânea: confundir popularidade digital com vitória eleitoral. As redes sociais são um termómetro de tendências, mas não substituem o voto real nem representam a diversidade do eleitorado.
Andre Ventura sempre dominou o espaço digital, com maior presença, interacção e produção de conteúdos. No seio da sua base de apoio, o discurso era de vitória, sustentado pela impactante presença online e por uma estratégia assente no ataque ao sistema político e na descredibilização de pessoas e instituições. Essa narrativa mobiliza sectores insatisfeitos, mas afasta o eleitorado moderado, geralmente menos ruidoso nas redes e decisivo nas urnas.
O mais caricato é que no nosso país alguns actores políticos e fazedores de opinião manifestaram apoio público a André Ventura, confiantes numa vitória construída no universo digital. Hoje, confrontados com a realidade eleitoral, restam o silêncio, o embaraço e a vergonha.
Em Angola alguns partidos da oposição tem seguido um padrão semelhante. Apostam no populismo por via das redes sociais, constroem e amplificam o discurso de vitória antecipada, atacando quem pensa diferente, em linha com a prática de Ventura. A situação é ainda mais grave com a corrida desenfreada às sondagens que se regista nos últimos dias — sem qualquer base científica ou probabilística — que dominam o debate político nas plataformas digitais. Estas sondagens não garantem vitória alguma; pelo contrário, geram frustração nos que acreditam na sua credibilidade e induzem o pacato cidadão em erro, confundindo expectativas com realidade.
Este comportamento irresponsável ameaça a paz social e a estabilidade, especialmente quando as eleições de 2027 se aproximam.
A democracia não se ganha com populismo digital nem sondagens manipuladas. Ganha-se com respeito pelas regras, compromisso com a verdade e maturidade política, elementos essenciais para a consolidação da nossa jovem Democracia.