ANGOLA COMO TÁBUA DE SALVAÇÃO PARA CRISE ENERGÉTICA EM CUBA? ENTRE A SOLIDARIEDADE HISTÓRICA E A REALPOLITIK
OPINIÃO
NUNO AGNELO-JORNALISTA E POLITÓLOGO
Visitei Cuba há alguns anos e ainda guardo viva a memória de um país que parecia renascer das cinzas. Nas ruas de Havana via-se um misto de esperança e de algum conformismo: prédios degradados convivendo com sinais tímidos de abertura política e económica, e pessoas determinadas a manter a vida e a dignidade em meio às dificuldades. Mesmo diante de uma infraestrutura do século passado, era impossível não sentir que a ilha ansiava por virar a página e recuperar o tempo perdido.
Hoje, a realidade é bem mais dura. O cerco internacional apertou drasticamente. A crise energética cubana resulta, em grande medida, do colapso do eixo Caracas–Havana, após a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e a neutralização política do Presidente Nicolás Maduro, que garantia a Cuba um fornecimento estável de petróleo em condições preferenciais.
Com a retirada venezuelana e o México — que chegou a assumir o papel de principal fornecedor de crude à ilha — agora sob forte pressão americana, tornando esse apoio praticamente inviável, Cuba encontra-se com reservas de petróleo quase esgotadas, sem alternativas imediatas e à beira de um colapso económico e social. É neste contexto crítico que surge a pergunta inevitável: poderá Angola ser a tábua de salvação energética que Cuba procura?
A ligação entre Luanda e Havana é histórica e inabalável. Angola sempre foi solidária com Cuba e continua a sê-lo: é um dos poucos países que, até hoje, defende abertamente, nas principais tribunas internacionais, o levantamento do embargo desumano contra a ilha. Essa solidariedade foi construída nos momentos mais decisivos da história do nosso país — durante a luta de libertação nacional e na defesa da soberania face à invasão do extinto regime do apartheid— criando uma dívida moral que permanece viva na memória coletiva dos dois povos. Não é por acaso que o mundo sabe que Angola integra o restrito grupo de países que poderiam, em tese, ajudar Cuba neste momento crítico.
No plano energético, essa relação também teve expressão concreta. Cuba esteve presente no setor petrolífero angolano, através da sua petrolífera estatal, que participou em atividades de prospeção, cooperação técnica e exploração de hidrocarbonetos no nosso país, no quadro dos acordos bilaterais de cooperação energética entre os dois Estados. Em sentido inverso, testemunhamos, em várias ocasiões, a participação da Sonangol em projetos e investimentos petrolíferos em território cubano. Ainda assim, é importante sublinhar com clareza: não existe qualquer registo de exportação de petróleo angolano para Cuba e face ao atual contexto internacional, é pouco provável que tal venha a acontecer nos próximos dias.
O mundo mudou profundamente. Angola é hoje um país soberano e estrategicamente posicionado. Nos últimos anos, o nosso país consolidou relações de alto nível com os Estados Unidos, que ultrapassam largamente o domínio económico. A cooperação Angola–EUA estende-se à área da segurança e estabilidade regional. A isto soma-se o valor estratégico do Corredor do Lobito, projeto amplamente apoiado por Washington e considerado vital para a segurança económica e logística da região e para os interesses americanos em África.
É aqui que a realpolitik impõe prudência. Qualquer gesto que pudesse ser interpretado como apoio energético directo a Cuba poderia acarretar , inevitavelmente, custos diplomáticos e estratégicos para o nosso país. Num mundo cada vez mais volátil e polarizado, decisões simbólicas podem ter consequências reais.
Angola já demonstrou, em várias ocasiões, a sua vocação solidária, prestando apoio a países como São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, República Centro-Africana, Chade e outros em contextos de emergência política, económica e social. Mas o caso cubano é diferente: trata-se de uma causa altamente sensível, com implicações diretas na geopolítica global.
Cuba procura hoje alternativas com urgência quase desesperada, Angola, embora livre para decidir soberanamente, precisa de equilibrar a amizade histórica com a defesa dos seus interesses estratégicos.
É cada vez mais evidente que esse cerco contra Havana integra um plano conduzido pelos Estados Unidos, cujo objetivo último é derrubar o regime cubano, não sendo descartada, em determinados círculos de poder, sequer a hipótese de uma intervenção militar directa ou indirecta.
A história recente demonstra que a pressão económica é frequentemente usada como ensaio antes da imposição da força. Ainda assim, los hermanos cubanos sabem que Angola continuará a ser um parceiro a ter em conta — pela memória da luta comum, pela solidariedade demonstrada ao longo das décadas e pela firme posição do nosso país na defesa da inviolabilidade da Soberania dos Estados.