Cadáveres com mais de 6 meses preocupa funcionários das morgues de Luanda. 90 por cento destes corpos foram deixados pelo SIC
Quem já frequentou uma morgue carrega consigo más lembranças desde a forma que os mortos são conservados e o cheiro que desafia o uso simultâneo de três máscaras. Para compreender a realidade, a nossa equipa de reportagem trabalhou durante duas semanas nas morgues de Luanda, com maior destaque a Morgue Central de Luanda e Cacuaco.
POR ISIDRO KANGANDJO
Com a colaboração de alguns funcionários, embora sem autorização para a gravação de vídeos e fotografar os cadáveres, foi possível ver o estado de vários corpos já deteriorado, remoções de cabelo da cabeça e outros meios-inflamados. O relatório dos quadros dos serviços e saneamento básico confirmaram ao Factos Diários que o cheiro é resultante dos cadáveres que estão entre 4 a 7 meses nas morgues, sem, no entanto, o reconhecimento do corpo e sem, também, o pronunciamento do Governo Provincial de Luanda e das Administrações municipais para efectuar o enterro colectivo.
Em Abril de 2023, a Rádio Nacional de Angola informou que, cerca de 60 cadáveres são abandonados mensalmente nas morgues de Luanda. A situação está a preocupar as autoridades sanitárias de Luanda, já que têm criado vários constrangimentos no processo de requalificação e apetrechamento destas unidades.
“De tanto cheirar mal, os familiares dificilmente entram para identificar o familiar que morreu vítima de acidente, por isso, nós cobramos uma taxa para achar e pedimos também taxa ao tirar o corpo para lavar. Mesmo nós que estamos infelizmente acostumados com cheiro, também queremos que melhorem. É preciso haver limpeza e enterrar os corpos que estão fazer quase um ano”, lamentou.
O Factos Diários não foi permitido fazer um trabalho longo na câmera-5, na morgue Central de Luanda, por exigir outros requisitos, mas aproveitamos uma abertura quando o familiar de jovem castro, desaparecido há duas semanas solicitou aos quadros do SIC para uma vistoria. Infelizmente o corpo não foi encontrado mas o que foi visto há três metros fora do contentor, simboliza um atentado à saúde pública. É o lugar mais nojento das morgues de Luanda.
Os números de corpos abandonados nas morgues de Luanda, segundo os dados passados pelos funcionários durante a nossa reportagem, totalizam 89 e, neste número, 90 por cento destes corpos foram deixados pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC), com registo criminal (mortos por disparo de arma de fogo), acidente, pessoas com perturbações mentais e abandono de cadáveres pelos familiares que não têm condições para efectuar o enterro condigno.
QUEM TEM O PODER DE ENTERRAR ESSES TIPOS DE CADÁVERES?
O Governo Provincial de Luanda,em coordenação com as Administrações Municipais e as autoridades sanitárias, têm a responsabilidade mobilizar os custos da logística para estes funerais administrativos e, segundo procedimentos legais do setor, quando não há familiares para a reclamação, os organismos estatais assumem a inumação uma vez que, os corpos não devem permanecer na morgue por mais de 72 horas após a observação, salvo em casos judiciais.
Segundo os dados que tivemos acesso, o processo do funeral conjunto exige vários procedimentos onde o Serviço de Investigação, o Ministério da Saúde e as direções hospitalares colaboram na identificação e na emissão da documentação necessária antes de autorizarem o enterro administrativo pelo Estado.
Se a norma diz outra coisa, a prática mostra uma outra realidade onde os procedimentos normais de 3 dias passam para mais de 6 meses o que faz com que as morgues se tornem cada vez mais imundas em termo de higiene.
QUEM GANHA COM OS CORPOS DETERIORADOS NAS MORGUES DE LUANDA?
Este é o assunto que irá conhecer em detalhes no próximo capítulo.