ESTADO, MEMÓRIA COLECTIVA E HONRAS PÚBLICAS
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OPINIÃO
TITO CAMBANJE/Advogado e Professor Universitário
- Toda história é uma narrativa.
- No nosso caso a narrativa é repleta de momentos de sujeição, de revolta, de coragem e de superação que não se confundem com a história pessoal de ninguém e dizem respeito a Todos, não podendo, em momento algum, serem erradicados das nossas memórias nem serem apropriados por ninguém.
- Porém vai uma diferença abismal, e politicamente sensível, entre preservar o lugar histórico de certas figuras e premiá-las por isso.
- As condecorações de Estado, enquanto momentos específicos de celebração nacional em que de forma laudatória se honram alguns cidadãos, estão reservadas àqueles que de forma abnegada, e muitas vezes anónima, contribuíram ou contribuem para o engrandecimento de todos.
- Este reconhecimento público serve não só para homenagear o passado, mas também para construir o imaginário social futuro uma vez que transmite às futuras gerações o modelo ideal de cidadão.
- Ora esse imaginário social, tal como a História, será construído com todos também? A resposta é negativa.
- Este imaginário social, no caso específico através de honrarias, só pode ser construído com os exemplos daqueles ou daquilo que realmente engrandece ou unifica.
- Como é amplamente documentado, se todos participaram na construção da História da nossa Nação, não é verdade que todos a tenham engradecido ou unificado e, se por um lado é injusto retirar o nome de alguns da memória colectiva por outro lado é também injusto atribuir honrarias há alguns que não as merecem.
- Ao contrário do que se possa querer fazer acreditar a História tem lado certo e lado errado.
- Atribuir honras ao cidadão X que esteve do lado errado da História e ao cidadão Y que esteve do lado certo não é respeitar a História é passar uma mensagem, socialmente perversa, que fazer o certo e fazer o errado são equivalentes.
- Porquê então o discurso social que insiste em condecorar figuras que estiveram do lado errado da história?
- A resposta comum, politicamente manipulada, parece indicar que a razão seja a reconciliação nacional.
- Assim, utiliza-se a manipulação política do conceito socialmente benéfico de “reconciliação” para inferir que se deve condecorar quem, paradoxalmente, sempre lutou contra a Paz e a reconciliação pelo simples facto de “ter estado lá”.
- Só que isso não é reconciliar: isso é fixar modelo político para mais revolta e rebeldia passando às gerações futuras a ideia de que a revolta permanente e a rebelião são o caminho, quando o único modelo que interessa para uma sociedade próspera é o modelo da moderação, da compreensão, da inclusão e da concertação permanente.
- Abraçar e perdoar? Sim, porque é absolutamente necessário para seguir em frente, mas isso não significa condecorar porque não se condecoram erros! Aprende-se com eles para evitar repeti-los.
- Ficarão assim alguns cidadãos isentos de reconhecimento? Não. Os grupos, facções, FUNDAÇÕES e conjuntos de cidadãos numa sociedade livre têm um amplo espaço para, querendo, reconhecer entre si méritos, com atribuição das mais variadas recompensas, ainda que publicamente contestáveis.
- Acontece que, sendo condecorações de Estado cabe a este, sem relativismos ou indiferença moral, manter-se fiel aos seus princípios e atribuir honrarias apenas àqueles que sempre se mantiveram fiéis às bases sob o qual ele foi constituído. Só assim ele se constrói e se mantém.
- Aos restantes de nós cabe continuar a estudar e construir patrioticamente a História do nosso País com a dedicação necessária, deixando as condecorações, passadas, presentes e futuras, para quem verdadeiramente as merece.
- Ngola Yetu no coração sempre.
- Tal como dizia um grande pensador: “ Todo o povo que esquece a sua história , certamente que correrá o grande perigo de ter de a repetir – lhe “ .