SEGURANÇA RELIGIOSA: “Angola precisa de líderes, não apenas de diplomas”

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OPINIÃO

Dr. GIDEÃO AUGUSTO PANZO/ Pastor Presidente do Ministério Ebenezer e Especialista em Segurança Religiosa


A discussão sobre a alteração da Lei da Liberdade de Religião e de Culto ganhou um novo capítulo com a aprovação da proposta, na generalidade, pela Assembleia Nacional. Entre as medidas mais debatidas está a exigência de formação teológica para os líderes religiosos.

A medida é em si mesma, compreensível.
Um líder religioso deve conhecer a sua matriz de fé, a doutrina e a tradição histórica que representa.

Mas há uma pergunta que não podemos evitar:
Será que um diploma em Teologia, por si só, pode preparar alguém para dirigir uma instituição religiosa, gerir recursos, proteger os seus fiéis, prevenir riscos e responder a uma crise?
A resposta, a meu ver, – não.

Esta, não é uma crítica à Teologia.
É uma questão de Segurança Nacional.
O problema não está no altar.
Encontra-se nas vulnerabilidades.

Uma igreja é, antes de tudo, uma comunidade de fé – Eclésia ( chamados de dentro para fora ). Mas, quando ela cresce, transforma-se também numa organização com pessoas de todos os extratos sociais, património, recursos financeiros, trabalhadores, instalações, actividades sociais e enorme capacidade de mobilização.

Quem dirige uma igreja ou local de culto, não exerce apenas uma função espiritual.
Exerce o poder de liderança institucional sobre os fies.

No entanto, saber expor a Palavra de Deus, não é o mesmo que saber governar.

Conhecer Teologia não significa necessariamente saber administrar finanças, gerir património, cumprir a legislação, proteger pessoas vulneráveis, prevenir conflitos, ou responder adequadamente a uma situação de crise.

É aqui que a discussão precisa de avançar.
Não basta perguntar se o líder religioso é teólogo. É preciso também perguntar se está preparado para a responsabilidade que exerce.

É precisamente aqui que entra o conceito de Segurança Religiosa. Porque entendo, que a segurança religiosa começa antes da ameaça.

Segurança Religiosa não significa vigiar a fé, controlar as igrejas ou considerar as confissões religiosas como ameaças.

Significa compreender o ecossistema religioso, identificar vulnerabilidades, antecipar riscos e fortalecer a capacidade das comunidades religiosas para contribuírem para a paz, a justiça social, a coesão social, a espiritualidade com base na ortodoxia bíblica e na resiliência nacional.

A Lei n.º 15/24, de 10 de Setembro, consagra uma visão multissectorial e preventiva da Segurança Nacional. Nesta perspectiva, não devemos esperar que uma vulnerabilidade se transforme numa crise para depois agir.

Devemos conhecer, prevenir e fortalecer a resiliência antes da crise.

E as instituições religiosas, pela sua presença e influência nas comunidades, podem ser importantes factores de resiliência nacional.

Podem promover a paz, solidariedade, cidadania, educação moral, assistência social e prevenção de conflitos.

Mas, para tal, também precisam de lideranças preparadas.

Teologia, sim. Mas também governação.
É por esta razão que a formação teológica deveria ser complementada por uma Qualificação Integral da Liderança Religiosa com mecanismos próprios e reconhecimento pelo Ministério da Educação.

Uma qualificação assente em três dimensões:
Espiritualidade, para formar o carácter e a liderança moral;

Teológica, para garantir competência doutrinária; e se evitar os desvios doutrinários nocivos às comunidades e a nação no geral.

Governação, para assegurar capacidade de administrar a instituição * ou local de cultos.

E, transversalmente:
Direito, Ética, Gestão de Riscos e Segurança.

Aqui entram matérias que raramente aparecem nos debates públicos sobre a formação religiosa, mas que podem ter enorme impacto na Administração Eclesiástica, Finanças Eclesiásticas, Gestão Patrimonial, Recursos Humanos, legislação, ética, protocolo e cerimonial, gestão de conflitos, gestão de crises e segurança dos locais de culto.

Com Isto, não significa transformar a Igreja numa empresa, mas sim preparar o líder para uma visão holística do seu chamado.

Significa reconhecer que uma instituição que orienta pessoas e administra recursos, também precisa de ser bem administrada.

O Estado deve regular. Mas deve também capacitar.
Uma política pública inteligente não pode limitar-se a:
problema → fiscalização → sanção.
Deve procurar: conhecimento → capacitação → prevenção → responsabilização.

É neste ponto que a actual revisão legislativa oferece uma oportunidade.

A Assembleia Nacional pode não apenas discutir as capacidades e valências de quem pode liderar uma confissão religiosa, mas também que competências deve possuir quem assume essa responsabilidade.

Quanto maior a responsabilidade institucional, maior deve ser a preparação.
Não precisamos necessariamente criar mais burocracia.

Precisamos de criar mais competência.
Uma questão de Segurança Nacional.
Angola precisa de estudar o fenómeno religioso com maior profundidade.
Não para controlar as igrejas.
Não para interferir na sua doutrina.
Mas porque não podemos formular políticas públicas sobre uma realidade que não conhecemos suficientemente.

É por essa razão, que o Instituto de Defesa Nacional propõe estudar o Ecossistema Religioso, Segurança Nacional e Desenvolvimento em Angola – Horizonte 2040, procurando identificar tendências, riscos, vulnerabilidades, oportunidades e factores de resiliência.

A questão religiosa não deve ser tratada apenas quando surge um problema.

Deve ser estudada antes do problema surgir.

Esta é a essência da prevenção estratégica.

O debate não deveria terminar em:
“Devemos exigir formação superior em Teologia aos líderes religiosos?”

Essa é apenas a primeira pergunta.
A pergunta verdadeira e sincera é:
“Que tipo de liderança religiosa queremos para uma Angola segura, coesa e resiliente?”

Se quisermos apenas diplomas, teremos diplomados.
Se quisermos instituições religiosas fortes, responsáveis e equilibradas, precisamos de líderes espiritualmente maduros, teologicamente preparados, administrativamente competentes, juridicamente conscientes e sobretudo capazes de prevenir riscos.

Porque a Segurança Nacional não se constrói apenas nas fronteiras.
Constrói-se também onde se formam valores, competências, comportamentos no meio das comunidades.
E as instituições religiosas são parte desse espaço.

Pelo que, compreender a religião não é interferir na fé. É compreender uma dimensão importante da sociedade angolana.
E compreender a sociedade é uma condição para protegê-la.

Convido a sociedade, líderes religiosos, especialistas na matéria e pesquisadores a refletirmos sobre este debate.

Soli Deo Gloria.


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