A Manga das 16: Uma Lição de Perseverança e Esperança
OPINIÃO
HERMENEGILDO COELHO /Especialista em Governação e Gestão Pública.
A obra do Professor José Semedo, intitulada A Manga das 16, leva-nos a uma profunda reflexão sobre o percurso da vida, o papel das oportunidades e a responsabilidade individual na construção do próprio destino.
Angola é um país que, segundo diferentes fontes e meios de informação, é frequentemente apresentada como uma grande produtora de milionários. Esta narrativa, amplamente difundida e consumida pela juventude angolana, leva-nos a questionar como é possível que um país com enormes desafios sociais e económicos produza anualmente tamanha desigualdade.
Muitos chegam facilmente à conclusão de que os milionários produzidos no país são fruto exclusivo da corrupção instalada. Uns fazem-no em função das experiências amargas que testemunharam; outros, devido aos inúmeros escândalos de corrupção que têm vindo a público ao longo dos anos. Contudo, a realidade demonstra igualmente que o combate à corrupção se tornou uma das principais agendas do actual Governo e que, lenta ou rapidamente, muitos dos envolvidos em práticas ilícitas estão a ser julgados, quebrando, assim, o sentimento de impunidade que durante muito tempo prevaleceu.
Esta narrativa tem sido profundamente desmotivadora para muitos jovens, levando-os a não acreditar que seja possível alcançar os seus sonhos nos diversos domínios da vida. Mesmo entre os mais favorecidos, existe quem não acredite ser possível tornar-se uma referência ou dar o famoso «pulo do tigre» na sua trajectória pessoal e profissional. O cérebro reproduz confortavelmente a conhecida frase de resignação: «Este país já tem dono» ou «Tudo gira em volta das mesmas famílias».
Estes pensamentos não surgem por acaso. São também consequência da escassez de referências positivas existentes no nosso país, da falta de testemunhos inspiradores e de narrativas que contem a história de angolanos que, através do trabalho árduo, da disciplina e do sacrifício, conseguiram vencer os grandes obstáculos da vida e alcançar a prosperidade.
É precisamente neste contexto que a obra A Manga das 16 assume especial relevância.
Através de uma metáfora simples, mas profundamente significativa, o autor demonstra como pequenas situações podem alterar o rumo dos acontecimentos das nossas vidas. Trata-se de uma obra que nos ensina que somos os verdadeiros responsáveis pelo nosso destino, independentemente das circunstâncias ou dos imprevistos que surjam ao longo do caminho. O que verdadeiramente faz a diferença é a forma como lidamos com os momentos difíceis e com as experiências negativas.
O livro retrata a trajectória de um homem que nasceu pobre e que, fruto do trabalho árduo e do aproveitamento das oportunidades que encontrou pelo caminho, se tornou uma referência académica, política e empresarial. É um verdadeiro exemplo de perseverança, resiliência e capacidade de superação.
Natural de Caxito, na Província do Bengo, José Semedo foi seminarista na juventude e filho de pais contratados, uma realidade que, em muitos aspectos, representava uma forma de escravatura moderna durante o período colonial. Como tantos outros jovens da sua geração, poderia ter seguido um caminho de fracasso e resignação. Contudo, escolheu os estudos, a perseverança, a resiliência e a capacidade de sonhar. Foi essa escolha que transformou o seu destino.
O exemplo dado pelo Doutor José Semedo deveria inspirar outras figuras de referência do nosso país a partilharem as suas histórias de vida. Só assim poderemos proporcionar aos mais jovens exemplos concretos de superação e demonstrar que nascer pobre não significa estar condenado a morrer pobre.
Em suma, nem toda a história de prosperidade em Angola está associada à corrupção, ao mau carácter ou ao aproveitamento de cargos políticos. Existem referências que, através do conhecimento, da moral, da ética, da perseverança, da resiliência, do foco e da visão, conseguiram alcançar os seus objectivos.
É evidente que não se trata de um caminho fácil. Não devemos alimentar ilusões nesse sentido. Trata-se, sim, de um percurso difícil, exigente e repleto de obstáculos, reservado àqueles que são capazes de suportar a dor, persistir perante as adversidades e manter viva a convicção de que o sucesso é possível através do mérito e do trabalho.