COMO AS REDES SOCIAIS FORAM FUNDAMENTAIS PARA A VIRADA HISTÓRICA DE LULA NAS ELEIÇÕES DO BRASIL

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PEDRO MUENHO/ Jornalista, pós-graduado em Webjornalismo, mestre em Jornalismo e Recursos Humanos e doutor em Educação.


Uma coisa é certa: o mundo já não é o mesmo, e a forma de comunicar também mudou radicalmente. Quem ainda acredita que as eleições se ganham apenas com comícios, entrevistas televisivas e grandes manifestações populares precisa compreender que o centro da disputa política também se deslocou para as redes sociais.


A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 deixa uma lição importante para políticos, partidos e profissionais da comunicação: já não basta conquistar as ruas; é preciso conquistar também o espaço digital.


Desde as eleições de 2018, a direita brasileira compreendeu melhor do que muitos dos seus adversários o poder das redes sociais na formação da opinião pública. Enquanto parte da esquerda continuava a apostar fortemente nos meios de comunicação tradicionais, os movimentos conservadores investiam em influenciadores digitais, vídeos curtos, transmissões ao vivo e mobilização permanente dos seus seguidores.


Essa estratégia permitiu que a direita construísse canais próprios de comunicação, muitas vezes mais eficazes do que os grandes órgãos de informação, cuja credibilidade é questionada por sectores da sociedade devido à percepção de alinhamento editorial com determinados interesses políticos.


Lula quase pagou caro por não acompanhar, com a mesma intensidade, essa transformação.
No primeiro turno das eleições de 4 de Outubro de 2026, Flávio Bolsonaro surpreendeu ao conquistar 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença de mais de dois milhões de votos revelou que a campanha do presidente precisava de uma mudança urgente de estratégia.


Foi nesse momento que algumas vozes mais jovens começaram a ganhar protagonismo.
Uma delas foi Ana Elisa, deputada federal eleita por Minas Gerais, aos 21 anos. Com uma campanha fortemente desenvolvida nas plataformas digitais e milhões de seguidores, a jovem parlamentar chamou a atenção para uma realidade que muitos dirigentes políticos demoraram a reconhecer: não adianta encher as ruas e abandonar as redes sociais.


Ana Elisa defendeu uma comunicação mais próxima da juventude, com linguagem simples, conteúdos capazes de gerar identificação e maior presença nas plataformas onde milhões de brasileiros passam boa parte do seu tempo. A sua experiência mostrou que as redes sociais não servem apenas para divulgar candidatos, mas também para criar identificação, mobilizar eleitores e construir comunidades políticas.


Entretanto, um dos grandes protagonistas dessa transformação foi o deputado federal André Janones.


Janones fez algo que muitas estruturas tradicionais de comunicação política não conseguiram realizar: transformou seguidores em agentes de mobilização.


Por intermédio do canal de WhatsApp denominado Exército do Lula, o deputado conseguiu reunir mais de 10 milhões de seguidores, criando uma verdadeira estrutura de comunicação digital. O canal funcionava como um centro de mobilização, onde eram divulgadas orientações, conteúdos, campanhas de hashtags e iniciativas destinadas a ampliar a presença da candidatura nas redes sociais.


A grande inovação de Janones não esteve apenas na quantidade de seguidores, mas na estratégia de procurar transformar cada participante num multiplicador de mensagens.
Em vez de esperar que os órgãos tradicionais de comunicação divulgassem determinada informação, a campanha passou a contar com milhões de pessoas capazes de partilhar conteúdos, comentar publicações, participar nos debates digitais e incentivar outros cidadãos a votar.


Naturalmente, dez milhões de seguidores não significam dez milhões de eleitores mobilizados. Mas representam uma capacidade de distribuição de mensagens que qualquer estratega político moderno precisa de considerar.


O resultado dessa mudança de postura ficou evidente na recta final da campanha. Lula reforçou a sua presença digital, intensificou o diálogo com os eleitores e procurou disputar um espaço que durante anos foi amplamente explorado pelos seus adversários.


Neste domingo, 25 de Outubro, Lula concretizou uma virada histórica, derrotando Flávio Bolsonaro no segundo turno e garantindo a sua reeleição. Às 22h08, com 99,98% das urnas apuradas, o presidente somava 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do adversário.


É evidente que nenhuma vitória eleitoral pode ser explicada exclusivamente pelas redes sociais. As alianças políticas, os debates, as propostas económicas, a mobilização territorial e a avaliação do governo também tiveram influência no comportamento dos eleitores.


Contudo, seria um erro ignorar o peso da comunicação digital nesta virada.
O caso brasileiro demonstra que as redes sociais deixaram de ser simples instrumentos complementares de propaganda e passaram a ocupar uma posição central nas estratégias eleitorais.


Hoje, um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhões de pessoas antes mesmo de um jornal chegar às bancas. Uma transmissão ao vivo pode mobilizar eleitores em diferentes regiões do país. Uma mensagem partilhada num grupo de WhatsApp pode chegar a comunidades que dificilmente seriam alcançadas por um comício tradicional.
Isso não significa que os jornais, as rádios e as televisões tenham perdido a sua importância. Significa, simplesmente, que deixaram de ser os únicos intermediários entre os políticos e os cidadãos.


Há ainda outra lição fundamental: os partidos precisam de ouvir os jovens, compreender os novos hábitos de consumo de informação e abandonar a ideia de que a comunicação política deve funcionar apenas de cima para baixo.


A experiência de Ana Elisa e André Janones mostrou que a capacidade de compreender as plataformas digitais pode ser tão importante quanto a experiência de dirigentes que passaram décadas dentro das estruturas partidárias.


A vitória de Lula deixa, portanto, uma mensagem que ultrapassa as fronteiras do Brasil e merece uma reflexão profunda em Angola e noutros países africanos, sobretudo por parte dos partidos que se preparam para futuras disputas eleitorais.


Quem não compreender o poder das redes sociais corre o risco de ter as praças cheias, os comícios lotados e, ainda assim, perder a batalha pela opinião pública.


As eleições já não se disputam apenas nas ruas, nas sedes partidárias ou nos estúdios de televisão. Disputam-se também nos telemóveis de milhões de cidadãos.


E a grande lição da virada de Lula é esta: na política moderna, não basta ter uma boa mensagem. É preciso saber comunicá-la, fazê-la chegar às pessoas e transformar a atenção digital em participação efectiva.


Porque, no século XXI, quem ignora as redes sociais pode descobrir tarde demais que perdeu a eleição antes mesmo de as urnas abrirem.



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