Angola aprova corredor eléctrico de 1.240 km até ao coração mineiro da RDC, construído inteiramente com capital privado
A Somagec e a Averi Finance garantem a concessão do “Corredor Leste”, um projecto privado em regime BOOT de 30 anos que vai electrificar o leste de Angola, ligar o país ao Pool Energético da África Austral e levar energia limpa e barata à indústria mineira da República Democrática do Congo, sem que o Estado angolano gaste um único kwanza.
Angola acaba de aprovar um dos projectos de infra-estrutura energética mais ambiciosos do continente: uma linha de transmissão de 400 kV, em circuito duplo, com cerca de 1.240 quilómetros, que liga Laúca, na província de Malanje, a Kolwezi, no coração da região mineira de cobre e cobalto da RDC.
O Presidente da República, João Lourenço, assinou o decreto que atribui a concessão, já totalmente licenciada dos dois lados da fronteira, transformando uma ambição regional antiga numa realidade financiada e contratada: uma auto-estrada eléctrica privada que liga duas economias através de electricidade, em vez de camiões de minério.
A concessão foi atribuída à Somagec Energy Holding, Limited (SEHL), em parceria com a Averi Finance, que lidera a estruturação financeira e a mobilização de capital do projecto. Juntas, as duas empresas vão construir, ser proprietárias, operar e, ao fim de 30 anos, transferir (BOOT) aquilo que é, na prática, uma nova espinha dorsal energética para a região, inteiramente a risco e custo privados. Sem endividamento público. Sem garantias soberanas. Sem qualquer encargo para o erário angolano.
Porque é que este projecto importa, para além dos cabos:
Electrifica o leste angolano. O traçado atravessa Malanje, Lunda Sul e Moxico, províncias que esperam há décadas por energia de rede em escala industrial. As novas subestações de Laúca, Xá Muteba, Saurimo e Luau trazem electricidade fiável a localidades, indústria e agricultura que hoje funcionam, na sua maioria, sem ela.
- É infra-estrutura pública, feita de forma privada.
Um projecto desta dimensão levaria tradicionalmente uma década de endividamento estatal, empréstimos multilaterais e linhas orçamentais para se concretizar. Em vez disso, está a ser construído inteiramente com capital privado, retirando o risco das contas do Estado, que mesmo assim fica proprietário do activo no final da concessão.
- Devolve receita à própria concessionária pública angolana.
Através do Acordo Comercial de Compra de Energia a assinar com a RNT-EP, a operadora nacional de transporte de electricidade passa a cobrar por cada megawatt que atravessa a fronteira para a RDC, receita nova e recorrente para a rede nacional, gerada por exportação e não por subsídio.
- Alimenta com energia barata e limpa o maior pólo mundial de metais para baterias.
Do lado congolês, a linha chega directamente ao coração industrial do Katanga, a região de cobre e cobalto em torno de Kolwezi, que abastece grande parte da cadeia global de baterias para veículos eléctricos. A energia hidroeléctrica angolana, mais barata e mais limpa do que o diesel que muitas operações mineiras ainda queimam, pode reduzir de forma significativa o custo de produção dos metais que sustentam a transição energética mundial.
Faz de Angola um exportador de electricidade nos dois sentidos. O corredor posiciona formalmente Angola como fornecedor estratégico de electricidade tanto ao Pool Energético da África Austral (SAPP) como ao Pool Energético da África Central (PEAC) — uma ambição nacional há muito enunciada, que passa agora a ter uma concessão assinada e uma estrutura de financiamento privado por trás.
Os números: capacidade de exportação expansível até 1.400 MW, entregue através das subestações de Laúca, Xá Muteba, Saurimo, Luau e Kolwezi, ao abrigo de uma concessão BOOT de 30 anos.
A parceria: a Somagec traz profundidade de engenharia e capacidade de execução técnica; a Averi Finance traz disciplina de estruturação e acesso a capital internacional.
As duas empresas já haviam trabalhado juntas no Corredor Norte, a linha de transmissão que liga Angola à RDC via Cabinda, este é o segundo grande corredor energético transfronteiriço que a dupla leva a fecho financeiro e regulatório, reforçando o seu papel como motor privado das ambições energéticas regionais de Angola.
Com o decreto assinado, o projecto avança agora para a fase de estudos finais de viabilidade, engenharia de pormenor e fecho financeiro, antes do início da construção daquela que será uma das linhas de transmissão privadas mais longas de África.