JUVENTUDE ANGOLANA: ÓRFÃ DE REFERÊNCIAS?

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OPINIÃO

ADILSON DIAS/Activista Social e Político


Num país onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a juventude angolana vive um paradoxo doloroso: numericamente dominante, mas politicamente e simbolicamente órfã.

Faltam referências credíveis, inspiradoras e próximas que consigam canalizar a energia, a frustração e as aspirações de uma geração marcada pela pobreza, pelo desemprego e pela desconfiança nas instituições.


O VAZIO DE LÍDERES


Desde a independência, as figuras de referência em Angola foram, em grande medida, heróis da luta de libertação ou líderes do MPLA (JMPLA). Com o tempo, esses símbolos envelheceram ou perderam o brilho perante os olhos dos mais jovens, que enfrentam uma realidade muito diferente: um sistema económico que não gera empregos dignos, cidades superlotadas, acesso precário à educação de qualidade e um sentimento generalizado de que “o futuro prometido” nunca chegou.

FACTORES QUE AGRAVAM A “ORFANDADE

Muitos jovens vêem os actuais líderes juvenis como parte do mesmo establishment, distante das suas preocupações diárias (preço do arroz, internet cara, falta de oportunidades).

Influência das redes sociais: A juventude consome mais conteúdo digital do que nunca. Figuras virais, humoristas e influencers preenchem parcialmente o vazio, mas raramente oferecem projetos colectivos ou ideais transformadores.

Emigração e fuga de cérebros: Milhares de jovens talentosos sonham em sair do país. Os que ficam lutam contra o desânimo, porque pouco são os jovens que estão aptos para os créditos, a banca não quer ser parte do crescimento económico e, isso tem matado a esperança da juventude.

Falta de modelos intermédios: Não surgiram ainda líderes juvenis com carisma suficiente para unir gerações ou propor alternativas concretas ao status quo. Os poucos que se destacam, usam as suas visibilidades para fins próprios e não para ajudar outros jovens a crescerem.

SINAIS DE MUDANÇA?


Apesar do cenário sombrio, há fermento. Movimentos estudantis, colectivos culturais, empreendedores digitais e pequenas iniciativas de inovação social mostram que a juventude não está apática, está à espera de referências autênticas.

A grande questão que se coloca é: conseguirá a juventude angolana gerar os seus próprios líderes ou continuará refém de referências importadas, envelhecidas ou impostas? Em 2027, ano de eleições gerais, este “órfão” pode finalmente encontrar a sua voz ou aprofundar a sua revolta silenciosa.

A história recente de vários países africanos mostra que juventudes sem referências próprias tendem a seguir caminhos imprevisíveis: ou explosões de protesto desorganizado, ou resignação perigosa.

Angola ainda tem tempo para evitar ambos os extremos. Mas o relógio não para.

A juventude é agora!!!!


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