O PERFIL DO SERVIDOR PÚBLICO
OPINIÃO
ADAILTON ZINGA (ADZINGA)
Comunicólogo e Linguísta
“Aquele que domina os outros é forte, mas aquele que domina a si mesmo é poderoso.” A milenar reflexão do filósofo chinês Lao-Tsé encerra, em si, o mais exigente e frequentemente esquecido critério de seleção para a vida pública. Quando transpomos esta sabedoria para a esfera do Estado, deparamo-nos com uma verdade incontornável: a política não carece de indivíduos apenas fortes, audazes ou carismáticos; carece de cidadãos genuinamente poderosos, aqueles que dominaram a sua própria ambição.
Nas últimas décadas, a concepção de política tem sido, demasiadas vezes, desvirtuada. Onde deveria imperar a nobreza moral e ética, instala-se, por vezes, a concepção errónea de que o Estado é um balcão de negócios. É, por isso, imperativo resgatar a premissa fundamental e inegociável da “res publica”. Pois, a política não é uma via de enriquecimento pessoal. É, pelo contrârio, a arte suprema de servir o próximo e de administrar o bem comum com total transparência.
Daí que surge a pergunta: quem é, então, o cidadão ideal para assumir os destinos da Administração Pública?
Bom, em primeiro lugar, é o indivíduo que entende o Estado não como um fim, mas como o principal motor de diagnóstico e transformação sócio-económica. O verdadeiro servidor público é aquele que não normaliza o inaceitável. É quem olha para uma escola com falta de mobiliário adequado ou para um bairro com debilidades no saneamento básico e sente o peso da responsabilidade, não a oportunidade de proveito. Este cidadão compreende que ocupar um cargo público, seja nos corredores da Administração Pública, da Educação ou da Juventude e Desportos, não é um troféu de estatuto, mas um contracto de prestação de contas assinado com a sociedade.

O autodomínio de que fala Lao-Tsé traduz-se, na prática, pela resiliência ética. Um político que não controla a sua própria ganância, jamais será capaz de gerir o erário público de forma justa. O perfil exigido pelo novo tempo é o de um gestor rigoroso que valorize a capacitação contínua, a literacia financeira e a optimização de recursos. A nobreza política exige que o património do Estado seja gerido com o mesmo (ou maior) rigor com que se estrutura e financia um projecto exigente do sector privado.
Mais do que um cargo técnico, a política exige “cidadania em acção”. O candidato ideal à vida pública é um ouvinte activo, um articulador capaz de envolver as comunidades na resolução dos seus próprios problemas, percebendo que a força de uma nação reside na sua sociedade civil organizada.
A nobreza na política não advém de títulos, mas da ética de trabalho. O Estado contemporâneo precisa urgentemente de construtores que não procurem os holofotes pelo simples prazer da vaidade. Precisa de cidadãos que, ao dominarem os seus egos e interesses particulares, alcancem o verdadeiro poder. A capacidade inabalável de dedicar as suas competências à melhoria da vida dos outros. Só através deste perfil a administração pública deixará de ser encarada como um palco de privilégios e voltará a ocupar o seu lugar de direito como a mais nobre e honrada das missões humanas.