Presidente do Partido Liberal rebate Carlos Feijó
OPINIÃO
LUÍS DE CASTRO/ Presidente do Partido Liberal.
Ouvi, com profunda preocupação, a entrevista do Sr. Carlos Feijó sobre o estado do nosso sistema de ensino.
Concordo com o diagnóstico de que o sistema educacional angolano está em crise. Mas não consigo ignorar uma questão fundamental: que legitimidade política e moral tem quem hoje critica o sistema sem antes fazer uma profunda introspecção sobre a sua própria responsabilidade na construção do país que temos?
Estamos a falar de alguém que foi Ministro de Estado, Chefe da Casa Civil do Presidente da República e membro da estrutura dirigente do partido que sustenta o Governo. Portanto, antes de apontar o dedo ao sistema, seria intelectualmente honesto perguntar: qual foi a nossa responsabilidade na construção deste sistema?
É PRECISO FAZER MEA CULPA.
Também me chamou a atenção alguma confusão entre o método socrático e o aristotélico. Sócrates ensinava sobretudo através do questionamento e do diálogo; Aristóteles procurava sistematizar o conhecimento através da observação, da lógica e da demonstração.
Há muito que defendo uma educação baseada naquilo que chamo de CHAVE DA VIDA:
C — Conhecimento
H — Habilidades
A — Atitudes
V — Valores
E — Ética
E é justamente na Ética que está uma das maiores crises de Angola.
Podemos construir universidades, formar doutores e multiplicar licenciados. Mas, se não formarmos homens e mulheres com carácter, sentido de responsabilidade, respeito pela coisa pública e compromisso com a verdade, continuaremos a produzir quadros tecnicamente preparados para reproduzir os mesmos vícios.
E HÁ UMA PERGUNTA QUE NÃO PODE SER EVITADA.
Num debate sobre a Constituição de 2010, ouvi o Sr. Carlos Feijó relatar, com aparente orgulho, que José Eduardo dos Santos lhe terá dito, juntamente com o Dr. Bornito de Sousa, que aquela Constituição não seria para ele, mas para o seu sucessor.
A MINHA PERGUNTA É SIMPLES:
Se um engenheiro percebeu que havia uma concentração excessiva de poderes no Presidente da República, como é que os juristas que participaram na elaboração daquele texto constitucional avançaram mesmo assim? E por que razão alguém se sentiria orgulhoso de contar esse episódio?
ESTA NÃO É APENAS UMA QUESTÃO CONSTITUCIONAL.
É uma questão de responsabilidade intelectual, política e, sobretudo, ética.
Por isso, quando falamos em reformar o sistema de ensino, não devemos apenas mudar currículos. Precisamos de formar uma nova geração com conhecimento, competência, valores e ética.
E talvez seja necessário começar por nós próprios.
Porque quem pretende reformar a educação de Angola também deve ter a coragem de ser examinado pela história.
A mudança que Angola precisa não é apenas de novos conteúdos. É de uma nova cultura.